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...No local onde hoje se encontra o Passeio Público existiu, até o final do século XVIII, uma lagoa chamada de Boqueirão da Ajuda. Essa lagoa era a única do Rio que desaguava no mar e impedia a ligação da cidade com o caminho do Engenho D'El Rei, que levava à zona sul.

A Lagoa do Boqueirão era um pântano cercado pelo mar e pelos morros do Castelo, de Santo Antônio e das Mangueiras. Como não havia serviço de esgoto na época, ela era utilizada, assim como todas as lagoas do Rio no período colonial, para o despejo dos dejetos da população. Devido à insalubridade da lagoa, toda a região da Lapa era despovoada.

Em meados do século XVIII, uma forte epidemia de gripe e febre atingiu grande parte da população carioca. A epidemia ficou popularmente conhecida como Zamparina, em referência a uma cantora italiana que morrera vítima da moléstia. Em pouco tempo, a expansão da epidemia na cidade foi atribuída aos miasmas provenientes da lagoa do Boqueirão. O então vice-rei, d.Luís de Vasconcelos, resolveu aterrar o charco, desobstruindo assim a ligação da cidade com a zona sul. Para ocupar aquele local, o vice-rei decidiu criar um jardim público, que seria o primeiro das Américas.

Essa lagoa foi drenada e aterrada com material proveniente do desmonte do pequeno Morro das Mangueiras, que se erguia onde hoje está a Rua Visconde de Maranguape, na Lapa. A tarefa de arrasar o morro, aterrar a lagoa e construir o jardim foi entregue a Mestre Valentim, considerado o melhor escultor da cidade na época.

O projeto de Mestre Valentim era hexagonal, com alamedas retas, cercado por muro de alvenaria com janelas gradeadas. Havia, em frente à atual Rua das Marrecas, portão de pedra em estilo rococó, com medalhão de bronze que apresentava as armas reais (voltadas para a atual Rua do Passeio) e as efígies de D. Maria I e esposo (voltadas para o jardim). Havia, ainda, um terraço que permitia admirar o mar, com um chafariz duplo também executado por Mestre Valentim (Fonte dos Amores). Esse chafariz possuía, no lado interno, grande bacia de pedra com garças de bronze vertendo água pelo bico, 2 jacarés entrelaçados e um coqueiro de ferro; voltado para o mar, um menino em mármore branco segurando uma tartaruga da qual saía água para um barril de pedra, encimados por uma faixa (onde se lia "Sou útil inda brincando") e pelo escudo do Vice-Rei, em lioz. O jardim foi abandonado: o coqueiro caíu e foi substituído por um busto de Diana (de procedência ignorada); as garças e o menino foram roubados (este último foi substituído, em 1841, por outro feito de chumbo). Em 1783 o jardim foi franqueado ao público e, em 1806, Mestre Valentim executou, por ordem do Vice-Rei Conde dos Arcos, 2 pirâmides de granito com medalhões onde se lia "A Saudade do Rio" e "Ao Amor do Público".

O Passeio Público foi a primeira área urbanizada do Rio de Janeiro. Um dos motivos da criação do jardim foi tornar a cidade mais saudável. O Passeio só se tornou realmente público em 1793, quando foi aberto à toda a população carioca. Até então, o jardim era exclusivo das figuras mais importantes da cidade.Em 1786 aconteceu no Passeio uma grande festa em comemoração ao casamento de d.João VI e Carlota Joaquina. Até meados do século XIX, o Passeio era uma das únicas opções de lazer dos cariocas, ao lado das festas da corte e das procissões e festas religiosas.

Novo período de abandono seguiu-se, vindo a ser remodelado por ordem do Imperador D. Pedro II, por sugestão do jornalista Francisco Fialho. O paisagista francês Auguste François Marie Glaziou valeu-se de formas curvas, à chinesa, incluindo lago artificial. Um gradil de ferro substituiu o muro e o alargamento da Rua do Passeio tomou-lhe 6 metros. A nova inauguração deu-se em 07 de setembro de 1862.

Em 1920 o terraço foi alterado, tendo recebido um prédio chamado Cassino, construído pelo arquiteto Heitor de Mello por ordem do prefeito Carlos Sampaio, no qual haviam teatro e cabaré. Os gradis foram retirados em 1922 e o Prefeito Henrique Dodsworth promoveu a demolição do Cassino. Várias estátuas foram ali colocadas, nem todas muito visíveis - em decorrência das sombras causadas pela farta vegetação e pela colocação em pontos centrais dos gramados, impedindo a aproximação dos visitantes.

Após outro período de abandono, a última reforma ocorreu em abril de 1988. As características mais tradicionais deste parque ainda estão presentes. Após as várias mudanças físicas e políticas ocorridas ao longo do tempo, o portão de entrada hoje se encontra novamente em frente à Rua das Marrecas: as efígies reais estão voltadas para a Rua do Passeio; as armas reais, todavia, foram substituídas pelo brasão da cidade, voltado para o parque. A presença da Guarda Municipal afastou desocupados que tornavam-no pouco aprazível e seguro. A região encontra-se hoje bastante diferente do que era, tendo as alterações ocorrido não apenas no parque, mas em todo o espaço ao seu redor (o Morro do Castelo foi totalmente desmontado em 1920, o de Santo Antônio resiste apenas onde se encontram Convento e Igreja de Santo Antônio e o trecho de mar que beirava o terraço foi aterrado, não sendo mais visível dali).





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