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...A Ilha fiscal era denominada no passado de "Ilha dos Ratos", constituindo-se de pedras com 4.000m2 de área. Até 1850 a ilha pertenceu a particulares, quando foi adquirida pelo Ministério da Fazenda. Era usada como depósito de entulho das obras da alfândega e, com sucessivos aterros, atingiu 5.200m2. A Marinha de Guerra começou a cobiçar o local para uma base, o que levou o Ministério da Fazenda a erguer um prédio para garantir sua posse.

Em 1881, o engenheiro Adolpho José Dell Vechio projetou um simples quartel para os remadores da alfândega. Foi dado início às obras em janeiro de 1882. Na mesma ocasião, mudou-se o nome da ilha para "Fiscal". Dell Vechio, homem sensível, comprou brotos de coqueiros da Bahia na praça do mercado e plantou-os na ilha. Quando as obras já estavam bem adiantadas, Dom Pedro II vez uma visita ao local. Ao ver o projeto, mostrou seu desgarado na frase "...esta ilha é um delicado estojo para uma preciosa jóia". O diretor da Alfândega, José de Sampaio Viana, autorizou então Dell Vechio a fazer um novo projeto,. Então, foi elaborado um prédio em estilo neogótico frânces, à semelhança dos castelos do Auverne, do século XIV. D. Pedro II aprovou e demoliu-se o que já estava pronto, para subir o novo castelinho. Em maio de 1888 estava quase pronto, mas a abolição da escravatura atrasou as obras. Finalmente, em 27 de abril de 1889, foi inaugurado o palacete com a presença do Imperador, Ministro da Fazenda e outras autoridades.

Toda cantaria artística foi lavrada em gnaisse extraído do morro do Pasmado, em Botafogo, por Antonio Teixeira Rodrigues, comendador e canteiro. A serralheria artística foi executada por Manuel Joaquim Moreira, inclusive a famosa flecha do torreão, que atinge 56m de altura. O relógio de quatro faces, o maior do Império, foi executado pela casa Krussmann. O brasão de armas do Império no torreão, o maior em pedra, foi feito por um ex-escravo septuagenário que ficou cego após executá-lo. A pintura interna e externa foi feita pelo artista alemão Frederic Anton Staeckel. Os móveis em jacarandá e couro de Córdova, foram feitos no Liceu De Artes e Ofícios. O piso com mosaico composto por 24 tipos de madeiras nacionais foi executado pelos artistas Moreira & Carvalho. Os vitrais coloridos a fogo foram feitos em Londres, sob desenho de Dell Vechio e outros artistas. O arquiteto expôs o projeto na Academia Imperial de Belas Artes, tendo ganhado medalha de ouro. Igualmente, foi condecorado pelo Imperador com a Ordem da Rosa, a qual, no entanto, nunca veio receber.

Quando o encouraçado Chileno Almirante Cochrane nos visitou em outubro de 1889, o governo sentiu-se na obrigação de dar um baile aos oficiais desta nação. Como havia perigo de golpe militar no ar, decidiu o presidente do Conselho de Ministros, acumulando a pasta de ministro da Fazenda Afonso Celso de Assis Figueiredo, Visconde de Ouro Preto, realizar a recepção na Ilha Fiscal. A verba de cem contos de réis foi obtida a partir de um fundo destinado a socorrer os flagelados da seca do Ceará.

A decoração foi deslumbrante, com direito a iluminação elétrica instalada pelo francês Leon Rhodde. O jantar constava de 14 pratos, fora o serviço de buffet. Da carta de vinhos, contavam 36 marcas, fora dez mil litros de cerveja e cem caixas de água mineral. So existia um banheiro provisório em toda a ilha, o que causou algum constrangimento. A música foi fornecida por uma orquestra e duas bandas, que executaram 18 composições de Strauss. O baile foi realizado no sábado, 9 de novembro, com 2.000 convidados, fora a Família Imperial. Duas barcas de passageiros foram deslocadas para atender os convidados. O Imperador chegou à ilha às 21:00, tendo tropeçado num tapete ao entrar no palacete. Teria então dito "...a monarquia escorregou, mas não caiu". Mal sabia ele que na mesma noite tramava-se no Clube Militar o movimento do dia 15 de novembro.

Quando a Princesa Isabel e o Conde D'Eu chegaram, às 23:00, começaram as danças (dizem que a Pricesa era uma "pé-de-valsa"), que foram interrompidas à meia noite para a ceia, a qual foi fartíssima. Depois da 1:00 hora da manhã recomeçaram as danças, sendo que a Família Imperial logo se retirou, proseguindo a festa até às 6:00 horas de domingo. Dançavam-se em seis salões. Dois decorados com motivos florais, dois decorados com motivos navais e os outros dois com espelhos. Existiam mais duas salas. Um salão de jogos e um salão toucador para as senhoras. Entretanto, a maior parte das danças ocorreu fora do palácio, pois não cabiam nele mais do que setenta casais dançando. Após a festa, o pessoal da limpeza encontrou dentre os despojos chapéus, cartolas, lenços, nove dragonas, oito raminhos de corpete, sete coletes de senhora e dezessete ligas; fora o que foi jogado ao mar.

Seis dias depois, o Imperador estava deposto e passaria no barco do exílio por sua querida ilha, para nunca mais vê-la.

Na República, o palacete foi pintado de rosa (originalmente era verde e marrom, sendo muito atingido por tiros disparados pelos navios revoltosos durante a revolta da armada em 1893, quando sumiram todos os móveis e foram quebrados vitrais. Em 1913, o Ministério da Fazenda, permutou a ilha com o Ministério da Marinha, em troca do vapor Andrada. A Marinha então instalou na ilha a Inspetoria de faróis, sob o comando do Contra-Almirante Américo Rodrigues Silvado, que ordenou a restauração do prédio conforme o projeto original.

A Ilha Fiscal foi ligada a Ilha das Cobras por um molhe, inaugurado em 1927 pelo presidente Washington Luís. Alguns anos depois, nela se instalou a Diretoria de Hidrografia e Navegação, que ecupou o edifício até 1997. A partir de 1984, a Marinha iniciou um minucioso plano de restauração do palácio, executado por partes e que reconstituiu os ambientes originais que haviam sido desvirtuados. A Prefeitura do Rio tombou o palacete em 1988, ainda em restauração, a qual prosseguiu sem quebra de continuidade até 1997. No mesmo ano, a Marinha abriu o local à visitação, todo restaurado, com monitores especializados e salas temáticas, tornando-se desde logo um dos grandes programas culturais do Centro da Cidade, sendo adossado ao Centro Cultural da Marinha.

Em 1999, foi enriquecido com o antigo rebocador Laurindo Pitta, construido na Inglaterra em 1910, e que passou a fazer o translado dos visitantes, do Centro Cultural da Marinha para a Ilha Fiscal em horários regulares, bem como passeios pela Baía, nos fins de semana.





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