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...Havia junto ao obelisco ao fim da Avenida Central (atual Rio Branco) uma espécie de calçadão de frente para o mar. Muitos anos e aterros depois, o obelisco hoje está bem longe das águas da Baía de Guanabara. A Avenida Central foi um marco da modernização da cidade. Sua abertura, feita no início do século passado pelo prefeito Pereira Passos, implicou a derrubada de cortiços e casas da época da colonização. Cem anos depois, segundo os técnicos do Arquivo Geral da Cidade, cinco gerações de prédios já passaram pela avenida. Das construções que deixavam o lugar com aspecto de bulevar europeu, nada mais restou. Nem mesmo o Hotel Avenida, onde ficava o Café Nice, freqüentado pela elite cultural carioca: ele foi demolido para a construção do Edifício Avenida Central.

A Avenida Rio Branco, chamada em seus primórdios de Avenida Central; um lugar que já ditou moda, mostrou as novidades do mundo para a Nação, viu nascer uma nova arquitetura, relegou seu passado "parisiense" em nome de um ideal "nova-yorquino", tornou-se centro financeiro, das agitações sociais e suas passeatas, do carnaval de rua com seus corsos e suas escolas de samba em períodos mais atuais. A Avenida Central nasceu em meio a ebulição causada pelo alargamento, demolição e prolongamento de diversas ruas e avenidas, além da criação de novas leis e projetos.

A avenida surge quase como complemento natural de duas importantes obras tocadas pelo governo federal, o novo Cais do Porto e a Avenida Beira Mar. O Ministro Lauro Muller, após aprovar o projeto final para o Cais do Porto do Rio, cita a necessidade de vias que lhe suprissem acesso, traçando então, sobre um mapa da cidade, uma via que ligava mar a mar.

As demolições para a construção começaram em fevereiro de 1904, e por estratégia política, foi desencadeada em 3 frentes simultâneas de trabalho, de modo a tornar irreversível o processo iniciado. O entulho resultante é retirado em grande parte no lombo de burros e outra pelos carris da Botanical Garden Railroad. São demolidos entre 500 e 641 edifícios, não existindo concordância quanto ao número exato de demolições. Para manter a retidão de seu traçado parte de de alguns morros foram demolidas, como o Castelo e o São Bento, (este teve parte de suas pedras aproveitadas pelos monges beneditinos na construção de edifícios de propriedade da Ordem na própria avenida e nas ruas Acre e São Bento). A rapidez do desenvolver das obras permitiu que fosse inaugurado o eixo da avenida no dia 7 de setembro de 1904.

Centenas de casas, em sua maioria com dois andares e pequenas fachadas, vão ao chão com a abertura da avenida. As demolições ocorriam além do perímetro desta, para que fosse possível definir terrenos com frentes mais amplas, como também permitir sobras de terrenos, que posteriormente poderiam ser negociados por somas mais vultosas. A população que era despejada do centro, agora mais valorizado que nunca e sem espaço para moradias de baixa renda, se via em situação complicada, pois a construção de vilas operárias era insuficiente para atender a demanda de desalojados e a massa trabalhadora, que estabeleceu um novo tipo de moradia, pendurada nas encostas dos morros próximos.

Esta imensa obra, criada à imagem dos boulevards franceses, teve sua festa de inauguração da fase final em 15 de novembro de 1905 - 27 meses e 7 dias após o início das obras - realizada sobre chuva torrencial, que nem por isso espantou a participação de populares. Contavam presença também o presidente Rodrigues Alves, o Ministro Lauro Muller, o engenheiro-chefe da Comissão Construtora Paulo de Frontin e o Prefeito Pereira Passos. Havia no dia da inauguração aproximadamente 30 edifícios prontos, quase noventa em fase de construção e poucos terrenos ainda para vender.

A conclusão da Avenida deixava lado a lado dois contrapontos, a modernidade que nela transitava e se erguia, com seus automóveis e lojas chiques; e a cidade velha que a circundava, com seu velho casario, ruas estreitas e hábitos a corrigir.

Baniu-se do centro da cidade a presença dos humildes e permitiu que a burguesia ganhasse as ruas, caminhando por um novo Rio de Janeiro de rosto parisiense, de avenidas largas, belos jardins e chafarizes com seus desfiles carnavalescos civilizados;sem os grosseiros modos do Zé Pereira, onde grande personalidades desfilam e as mulheres começam a ganhar sua liberdade. Contudo, para alguns a grande obra não passava de uma "mulata apertada em um vestido francês", com seus prédios de belas fachadas, com interiores totalmente dissociados do que apresentavam para a rua, com plantas simples e funcionais.

A nova configuração dos terrenos ao longo da Avenida permitiu a construção de grandes edifícios, e, diferente do que aconteceu nas reformas de Paris, todos tinham cunho estritamente comercial. A predominância de grandes lojas afastou definitivamente os pequenos comerciantes, que não tinham como arcar com tais despesas, fazendo da avenida lugar exclusivo das grandes corporações, definindo um status social para esta área totalmente diferente de seu entorno, onde ainda predominava a antiga estrutura colonial.

Os critérios utilizados para o remembramento dos terrenos e o uso que acabou por dar-se a estes, definiu três setores distintos, porém integrados, na Avenida Central. O primeiro trecho, entre o largo da Prainha (atual Praça Mauá) até a rua Gen. Câmara (destruída com a abertura da Av. Presidente Vargas), por sua proximidade com o Porto, foi ocupado principalmente pelo empresariado ligado ao comércio de importação e exportação e pelos bancos ligados a estas atividades. No trecho seguinte, que se estendia até a rua São José, instalaram-se as principais atividades comerciais: as grandes confeitarias, lojas de vestuários, magazines, estabelecimentos bancários e os jornais; como o do Brasil e o do Commercio, tornando-se o ambiente ideal para o desfile das novidades e das ostentações da burguesia. O trecho final que se estendia até a Av. Beira Mar , composto por grandes lotes formados pelas áreas ganhas com desmonte de parte do Morro do Castelo e de áreas remanescentes junto a praça Ferreira Viana se caracterizou por seu cunho institucional, com grandes edifícios públicos como o Teatro Municipal, a Escola Nacional de Belas Artes e Palácio Monroe.

Com a morte do Barão de Rio Branco em 10 de fevereiro de 1912, passou a ser denominada a Av. Central de Avenida Rio Branco. Assim como seu nome original durou pouco tempo, a estrutura da própria aos pouco também começava a sofre alterações. A visão de mundo européia, francesa principalmente, que era simbolo de modernidade a época da inauguração foi gradativamente sendo substituida pela visão de mundo norte americana, a de um novo industrialismo que chegava ao Brasil, principalmente após a 1° Guerra Mundial.

Em seus 20 primeiros anos pouca coisa mudou, sofrendo apenas algumas intervenções pontuais, como a inauguração do Hotel Avenida em 1911 e a demolição do convento da Ajuda, no mesmo ano, que permitiu a criação da Praça Floriano e do que em alguns anos seria o maior polo de diversão da avenida.

Com o porto desembarcando constantemente novidades, devidamente expostas na avenida, não é surpresa o cinema ter se instalado nesta desde a primeira década, pontuando com varias salas a Av. Central. Com a demolição do convento da Ajuda surge uma grande área, que nas mão de Francisco Serrador, que adquirira um grande lote do terreno em 1917, tornaria-se a "Brodway" carioca, com seus quatro arranha-céus, Capitólio, Glória, Império e Odeon, inaugurados entre 1925 e 1926, formando a Cinelândia, grande centro de lazer para a população.

Com a gradativa exclusão das habitações das cercanias do centro da cidade e a ocupação da avenida quase exclusivamente por edifícios comerciais e empresarias ocasionou um fenômeno, perceptível até os dias de hoje: o do esvaziamento da Avenida durante a noite e nos finais de semana, exceto no trecho mais próximo a praça Mal. Floriano, onde concentravam-se os prédios de atividades institucionais e culturais.

Enquanto em uma ponta da avenida a modernidade é trazida pelas telas do cinema, na outra, no local onde outrora existiu o Liceu Literário Português, era erguido em 1929, ano do jubileu de prata da avenida, o maior arranha-céu da América Latina, e o maior do mundo em estrutura de concreto armado, o edifício A Noite com seus 22 pavimentos. A partir de 1936 viria a abrigar a mais importante emissora brasileira na época, a Rádio Nacional, poderoso meio de comunicação nos anos anteriores ao advento da TV.

O concreto armado, tecnologia muito mais acessível que a estrutura em aço, aos poucos começa a mudar a cara da Avenida, permitindo a substituição dos antigos edifícios de aspiração parisiense por outros que tinham as torres americanas como modelo. A moderna avenida viu seu modelo original desgastar-se, não se mostrando condizente com os novos pensamentos. Por ser moderna não conseguiu se impor como monumento que merecesse a preservação de seu perfil original, o que se mostrou fatal para grande parte dos prédios existentes.





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